"Vós sois a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos os homens, estando já manifestos como carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivente, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos corações." (2 Coríntios 3.2,3)
[Este é o 1º de 5 devocionais sobre o tema da Confederação Nacional de Mocidade para o quadriênio 2022-2026, "Cartas de Cristo"]
Das metáforas bíblicas para o testemunho cristão (sal, luz, uma cidade sobre o monte, uma candeia etc), a carta é uma das menos conhecidas. Mas a imagem paulina é vívida: a Igreja é como uma carta, escrita pelo Espírito Santo, e lida por todo os homens.
Alguém certa vez disse "pregue o evangelho; se necessário, use palavras". Isso não é verdade. O apóstolo Paulo inicia Romanos com a famosa declaração: "Porque a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: 'O justo viverá por fé'". E no capítulo 10 prossegue, "Porque está escrito: 'Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo'. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?". Não há pregação sem palavras. Não há evangelho sem palavras.
No entanto, também é verdade que não se pode subestimar o valor que a própria Escritura dá ao testemunho da Igreja. Gosto de pensar na vida cristã como uma espécie de moldura dentro da qual o evangelho faz sentido e é apreciado por sua beleza. A moldura nunca é protagonista (quando o quadro é realmente bonito). Assim, a vida cristã exemplar, obediente, tem o poder de adornar e apontar para a mensagem da Cruz.
Quando o mundo olha para a Igreja, precisa ver algo que os faça pensar. Por isso Jesus disse: "Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros" (João 13.35). Se o mundo olha para a Igreja e vê amor, saberão que ali há uma comunidade cristã, pois em nenhum outro lugar o amor subsiste como dentre os filhos de Deus. O testemunho cristão, que, por definição, contraria expectativas, tem o poder de "amontoar brasas vivas" (Provérbios 25.22) sobre a cabeça dos descrentes.
Na segunda carta à igreja de Corinto, Paulo lida com líderes que menosprezavam e confrontavam seu apostolado. Eles se enfiavam no meio das comunidades por meio de cartas de recomendação, que, nesse caso, não valiam de nada. Paulo, por sua vez, não precisava de cartas de recomendação. Ele diz: vocês são a nossa carta. A Igreja é a vívida confirmação e legitimação do evangelho de Cristo.
Há muitos outros pontos interessantes na metáfora da carta. Um deles é que carta é algo pessoal. As cartas antigamente tinham tantas vezes um tom de proximidade. Precisamos estar perto de gente, convivendo, servindo, para que sejamos lidos. Além disso, cartas não são literatura metalinguística: ela não fala de si mesma. É mera mensageira de algo maior.
Cristo fez de nós livros abertos para que o mundo conhecesse a Paz. E, como diz a canção, "a paz que eu carrego é uma carta que não fala nada de mim".
O que o mundo vê ao ler as nossas vidas?
- Misael Pulhes